Deixou o último grão cair com o dorso da mão esquerda enxugou a lágrima que escorrera catou os cacos do coração ficou em silêncio mais uma vez o amor lhe abandonara.
(Edward Hopper - "Quarto de Hotel") o silêncio preencheu o vazio o sentimento ficou esvaziado a teia da rotina não reteve nada rompeu-se os dejetos escondidos no bunker das aparências a relação se desfez talvez possa existir um futuro sem mágoas mas o tempo que dilui a memória se incumbirá de iludir o coração
nada em mim é obstante tão insuficiente de alma os resíduos de ontem perdidos em sonhos ressoam em minha fala grito seco de fome fronte em pedaços raros desejos sorrisos parcos
quero um poema áspero sem sentimentalismo sem nuances sem forma bem talhada (Frida Kahlo-"La columna rota" by 1944) quero toda crueza nenhum aspecto de beleza sem candura sem melodia quero que sangre sem piedade sem resquício de vaidade sem medo em fim.
a tristeza acampou em meu coração por esses dias a felicidade foi embora, trocou-me por outra vida a nostalgia quer morar comigo a verdade passou por mim desapercebida o coração está bagunçado o pensamento está lotado o amor está em liquidação.
mergulho nos braços da solidão o aconchego que me entorpece não merece um só gesto de perdão. Sem ressentimento entendo que estar só não é viver fora da multidão é o laço que se estende entre mim e ti toda a serenidade da aceitação.
Pintei o quarto com tons de amanhecer arrumei a cama com lençóis de seda vermelha perfumei o quarto com flores de laranjeira aguardei por horas a fio noite inteira solucei baixinho amanheci sozinha por fim, outra vez solteira.
Li nos seus gestos Um sinal de saudade Um fragmento de solidariedade Um adeus, nenhum perdão Li nos seus olhos o nosso passado o seu futuro a minha solidão.
Ele tentou remir os ressentimentos relembrou dos afetos e aos desafetos purgou todas a dores. Hoje prefere não pensar nos temores dos amores. Ela chorou com pesar lembrou de todas as flores. E assim, foi repensar quase esqueceu dos dissabores. By Lu Ribeiro
Levei uma hora contando o tempo tempo para sonhar tempo para sorrir. Levei tanto tempo tentando não acordar tentando não sumir. tempo diluído na mémoria da carne subtraído no coração. Dando tempo ao tempo opto por vivê-lo em vão. by Lu Ribeiro
Mulher Adormecida com Persianas (1986) by Pablo Picasso Hoje acordei esfacelada mutilada pela saudade coração no cesto. Tentei me ajuntar pernas no ar olhos no polegar. Hoje você não viu golpeu-me sem medo meu coração se iludiu. Tentei recuperar meu suspiro do ventre surgiu um gemido meu sonho simplesmente se rompeu. Inspirado em Teresa de Manuel Bandeira