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Para quem me lê

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Boa noite/ Bom dia, Vejo que há pessoas que acompanham os meus escritos, muitas vezes são surtos imaginativos, outras palavras um tanto desconexas. Lançar palavras na Web, tem a mesma ideia das palavras lançadas ao vento, parece não ter sentido, parece que vivemos só. Hoje estou especialmente, comovida, sensível, ... ler as notícias é um verdadeiro tormento, violência para todos os lados, violência de todos os "desgostos"... dentre tantas quero falar de uma que me atinge no âmago. É a violência contra à mulher, hoje mata-se mulheres como se matasse baratas. Os motivos são os mais torpes, mais estúpidos, mais covardes,... A lei Maria da Penha é uma pontinha de vitória contra a impunidade, mas há muito a ser feito. Gente vamos denunciar nossa omissão permite que muitas Anas, Marias, Elizangelas, Fátimas,... sejam brutalmente violentadas e mortas. Hoje, estou triste porque os índices não param de aumentar e nada acontece! Lu Ribeiro Elza Soares interpreta Maria da Vila Ma...

Mais uma lembrança

A chuva encharcava o  meu pensamento, quando eu o vi.  Ele estava  parado na esquina os olhos buliçosos e  os lábios esboçavam uma sinceridade. Eu o perscrutei como quem põe um inseto na lupa.  Os pés pequenos que contavam longas histórias de caminhos antigos e das ruas cujos nomes foram apagados, dos lugares que o tempo engoliu. Trajava calça branca com listinhas finas, camisa azul de botões e boné listradinho. E, como um encanto, descobri nele uma antiga lembrança, que  havia se perdido na minha vida adulta, voltei ao sítio São Francisco, a casa branca de varanda e cheguei ao quarto das invenções. Era o estúdio do meu avô materno, “Seu Francisco”, eu chamava de vovô Chico. Um homem criativo, de cabelos densos e azulados, mãos trêmulas e o sorriso sincero. Ele não desperdiçava nada, fazia novo uso de algo velho, criava algo inusitado. Meu irmão herdou dele esses “genes de professor pardal” e eu herdei toda a saudade.

O despertar da Cinderela

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O fuscão 68, o companheiro inseparável, que h erdou de seu tio solteirão. Aos dezoito anos era um dos poucos de sua turma que possuía um veículo. Afinal, ainda estava no terceiro ano  ensino médio. Nunca fora popular entre os colegas, mas agora tudo mud ou . A carteira de habilitação estalando de nova nas mãos, foi inevitável sentir um  furor, porque não dizer um orgasmo, tudo seria diferente. Não mais, o último a ser escolhido para completar o time, a partir de então era ele quem escolhia, era o dono da bola. Quantas meninas que antes não lhe davam um bom dia, passaram a sorrir lhe todos os instantes, os bilhetes eram constantes, uma chuva deles durante as aulas. A sorte lhe sorria. Um adeus bem rápido aos pais, mochila, óculos e a carta de alforria. Todo lindo a sua espera o fuscão, brilhando de limpo. Abriu a porta, ajustou o banco e o espelho retrovisor, chave na ignição, medo, lágrimas. A expectativa, o silêncio, por fim, o carro ligara. Soou como um velho tiss...

O soldado e a Colombina

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Meu tio, Deval era muito engraçado. Quando chegava o Carnaval  ele dizia que meus avós haviam se encontrado na folia. E acrescentava que foi o "passo do ganso"* que meu avô seduziu a bela mocinha.  Todo ano era a mesma história. Minha avó simplesmente sorria. Meu avô só pigarreava e fingia que não ligava. Eu assisti por anos a fio, meu tio reproduzir essa pantomima**. Foi num dia de folia de 1985 que esse meu tio partiu para outra vida, anos depois foi a vez da minha querida vozinha. E eu fiquei assim, abandonada. No Carnaval de 1994, enquanto meu avô  segurava a minha filha no colo vestida de bailarina, tomei coragem e perguntei de chofre: "Fale a verdade vô, o senhor conheceu minha avó na folia?" Ele  me olhou nos olhos e disse: "Você foi a única que não  se esqueceu dessa história menina. Pra bem da verdade, foi no Carnaval que roubei o coração de sua avó. Eu era soldado raso e ela uma linda colombina." * Passo do ganso : Uma marcha militar ...

Max e Mi: um amor desigual

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Mi entrava sem pedir licença, não se importava com os outros moradores. Todas as tardes,  Max calmamente a aguardava . Mi conversava com o corpo, um  languido sussurrar, sem nexo para os outros, mas para ele era doce poesia. Numa tarde chuvosa,  um entra e sai de gente desconhecida. Max acreditava que daqui a pouco tudo se resolveria, contudo, veio o entardecer e um passeio inesperado. Entrou no carro com sua família, sem tempo de avisar a amiga que morava do outro lado da rua. Max relutou, mas algo estranho acontecia. O carro partiu bem rápido, ruas, prédios, pássaros, um cheiro de marina. Quando percebeu tinha chegado numa casa desconhecida. Percebeu pela euforia dos outros, que aquela seria sua nova moradia. Um vazio o preenchia, latiu baixinho, saudades de Mi. Mi achou esquisito a casa estava vazia. Procurou por Max por toda casa, o chamou, mas ninguém respondia. Foi então que percebeu que o amigo partira, o coração doeu, um mio profundo proferiu. Se pudesse cho...

"Olha, o barulhinho!" (Feliz dia dos pais)

“Olha o barulhinho!”, é a frase que mais lembra ele. Sujeito honesto, trabalhador e leitor de Tex. Usava mala preta, sapatos, sempre sapatos, sempre sapatos lustrosos. Uma vez me disse que ganhou os primeiros tostões engraxando sapatos, amava-os, pois quando criança usava tamancos, tac, tac, tac. Como odeio tamancos! Odeio isso também me faz lembrar-se dele “Menina bonita não anda descalça, odeio isso e você sabe”, então piscava, eu pulava no colo e ele dizia “Olha o barulhinho!” eu comia bananadas. Elas têm gosto de saudade, aliás, tudo isso é saudade, saudades de meu pai. Feliz dia dos pais. *Tex ou Tex Willer (que já foi chamado de Texas Kid quando foi publicado em 1951, na Revista Junior número 28), é uma personagem de banda desenhada (história em quadrinhos), criado em 1948 e originalmente publicada na Itália. Tex é uma das personagens de westerns mais longevas da história dos comics, sendo publicado em diversos países do mundo. *Detalhe, meu pai até hoje faz a mesma brinc...

O e-mail

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Outro dia recebi um e-mail o remetente era desconhecido, mas como não tinha anexos, pensei que fosse inofensivo. Mas para o meu espanto, vinha nele um convite. Sujeito maduro de poucos anos, acha que é bi, na verdade está em conflito. Suposto morador da mesma cidade que vivo, propôs um encontro via skype para um bate papo mais íntimo. Li o convite sem nexo, porque em nenhum momento me expus para receber tal apelo, foi então que eu percebi que ele observava as minhas poesias e supunha o que estava escrito era tudo vivido. Foi então que eu percebi que ainda existiam pessoas que confundem o texto como algo experiênciado por quem o escrevia. Achei por bem, responder o email, visto que “aquele tipo de contato” não me satisfazia, se ele tivesse poesias ou outros textos para compartilhar, tudo bem eu o faria. Caso fosse outra sua intenção aquilo não me aprazia. Dois dias se passaram e nem uma resposta eu recebia, até que ontem bem tarde da noite encontrei o email que dizia. “Eu ...

A bolsinha amarela de gato

De repente, o toque em meu dedo esquerdo fez a mente voar. Retrocedi as horas, os dias, os anos e, então, me deparei com seis anos de idade na sala de artesanato no fundo da Igreja São José. Vi nitidamente os rostos, as mãos, as bocas, os olhos, as linhas, as lãs, as agulhas, as receitas, as cadeiras, as revistas, as janelas abertas em mim. Imagens animadas há muito tempo perdidas. Um quadro vívido de um momento esquecido, onde o sonho não tinha limites e medos.  Vejo uma saia vermelho-cereja, pernas morenas e aconchegantes. Eram as pernas de minha mãe. Eu ali sentada no banquinho perto delas, que eram o meu apoio, acalanto e porto seguro. As mocinhas frequentavam as aulas de artes manuais, porque na maioria dos casos suas mães, avós, tias e primas também estavam ali. Era costume de aquela comunidade suburbana incentivar a tradição do artesanato. Outras estavam ali, pois era única forma de sair de casa, visto que naquele tempo  não era permitido as “meninas de família...