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Novembro...

        Novembro chegou. Minha avó dizia, "Pietra, minha filha, esse é o mês do expurgo, mês pesado,..." Eu ouvia mais não dava atenção, lembro-me com muita clareza desses ditos, ou melhor, dizendo, previsões. Muitos anos depois, eu já havia constituído família, morava um apartamento espaçoso em Olinda de frente pro mar.  Era Novembro 2013, estava animadíssima para o Natal. Optei por fazer toda ornamentação artesanalmente, afinal meses antes fiz cursos de bordados, bonecos, ... Queria por em prática tudo o que havia aprendido. Os meninos estavam entusiasmados Pedro, João e Thiago, só falavam nos desejos do dia de Natal, Pedro gostava de bolo de nozes, João preferia bolo de chocolate com cobertura de chantili e Thiago, o menor, comia tudo que tivesse.  O pai das crianças era bancário, e nesse período, chegava à casa muito estressado. Então eu parava de fazer "arte" e dava atenção a ele. Contudo, ele carinhosamente me d...

Pedi aos meus alunos ...

Pedi aos meus alunos que fizessem uma redação, não delimitei o assunto, mas sugeri que utilizasse o coração para expressar o que estavam sentindo.  Muitos falaram sobre o medo de conviver num bairro perigoso, outros falaram sobre a situação familiar e outras preocupações de cunho econômico.  A medida que lia conseguia vislumbrar a justificativa de muitos comportamentos em sala de aula, por exemplo, consegui entender porque uma determinada aluna faltava tanto. A justificativa era simples, ela compartilhava o sapato com outras duas irmãs, logo quando uma ia a escola as outras duas ficavam em casa, pois não podiam comparecer sem o uniforme completo ( aqui em Salvador utilizamos o termo "fardamento"). Outro caso que me tocou foi de um menino que durante as aulas sempre dizia que queria ser presidente, não tinha outra profissão para ele, a questão era ser presidente do país e ponto final. Lendo a sua redação percebi que ele vivia em quase abandono emocional. A mãe separo...

Reminiscências de um sonho (parte3)

Guissepe ao chegar em águas brasileiras, sente-se cheio de esperanças. Olha a pequena Gioconda com ternura, mas ainda sente todo o fardo da tristeza, a lembrança de sua esposa. Teresa foi uma mulher maravilhosa, possuía uma personalidade dócil, que disfarçava toda a sua atitude de mulher mandona. Ela gostava de organizar a casa com esmero,  no entanto, era  essa doce criatura quem gerenciava os negócios, Guissepe era um mero fantoche, cabia-lhe apenas colocar um sorriso no rosto e ser polido no trato com as pessoas. Teresa tinha um forte tino empreendedor fora criada para ser dona de casa, porém seu pai percebendo o jeito da filha lhe ensinou as escondidas a fazer a contabilidade, organizar estoque,... coisas que não cabia ao papel feminino. Submerso em seus pensamentos, Guissepe não percebia as pessoas em seu entorno. Sua mente só questiona-lhe sobre a decisão em viver em terras estranhas carregando uma filha de seis anos e uma irmã viúva. Será o que o destino vai l...

Reminiscências de um sonho (parte2)

A pequena Gioconda  guardou na memória por muitos anos o passeio que fez no convés do Colombo com seu pai. Afinal, a dura viagem que se estendeu por longos dias dava-lhe a sensação de ter durado meses, e porque não dizer anos. Quando vapor deixou o porto de Gênova no inicio da primavera o calor já se pronunciara, mas a menina teria que usar vestidos escuros pois estava em estado de luto por causa do falecimento de sua mãe.Na verdade os vestidos incomodavam menos que o distanciamento de seu pai. Giuseppe era um homem bem alto, educado e comunicativo tinha empreendimentos diversos, era respeitado por sua comunidade. Contudo, desde o inicio da doença da esposa ficou distraído. Seu semblante refletia sua agonia e preocupação. Quando a esposa veio a óbito estava sem forças e deprimido. Ficou aproximadamente vinte dias trancafiado no quarto, deixando sua única filha aos cuidados de sua irmã mais velha, Maria. Maria cuidava da menina e de seu irmão com grande afinco, relegando...

Reminiscências de um sonho

Mariana fechou o livro, guardou os óculos, guardou os papéis e o lápis. Tentou fazer o mínimo ruído. Sentia as mãos doloridas e os olhos cansados, mas o seu coração estava alegre. Valeu o sacrifício, finalmente encontrou registros de seus tataravós. E assim, pode reescrever a história de sua família. Tudo começou com o vapor que saíra do porto ...

Expectativas de um Ano Bom

Alguns fogos já anunciavam ao longe o fim daquele ano. Ana não tinha a menor vontade de ir à praia para a ver a tão famosa queima de fogos em Copacabana. Achava programa de gringo, de índio, de..., enfim, achava que não tinha nada que a interessasse. Mariana, por outro lado, era pura emoção. Já havia comprado roupa branca, lingerie rosa e flores pra Rainha do Mar. Estava, particularmente encantada com o que estava por vir. Pedro estava preocupado repassou o som durante à tarde, era a primeira vez que tocaria num evento tão grande. À flor da pele estava Marcelo, porque não conhecia ninguém só estava na capital há um mês, mas o seu colega de quarto insistiu que fosse. Contagem regressiva, Mariana fechou os olhos e cruzou os dedos, pedindo tudo que o coração ansiava. Ana estava alegrinha, depois de tantas cervejas, abraçou a primeira pessoa que estava ao seu lado. Marcelo ficou particularmente animado com o caloroso abraço que recebeu. Pedro executou bem as músicas, mas quando termino...

Antigos instintos (parte3)

Ele acredita na sedução, mulheres carentes de atenção são deliciosas surpresas. Ontem, se lembrou de Catarina. Loirinha linda com sorrisos entre covinhas. Colo amplo e reconfortante do tipo que convida a cabeça para reclinar. As pernas volumosas culminando num andar maravilhoso, arrebitando as nádegas como se elas chamasse para observar. Ele entre um delírio e outro suspirava quando revivia o sangrar o pescoço contrastando a pálida pele um róseo misterioso.

Antigos instintos (parte 2)

Uma semana se passou ele continua prescrutando os lugares. No Chá elas passam apressadas mal vestidas, galocha, chapéu, encapuzadas. O que capta é o andar, o mexer das ancas, sem dúvida preferia as gordas. Tipo de mulher perfeita, estilo de Botero, aquelas enigmáticas damas. De estrutura voluptuosa, mas de frágil coração, deliciosas presas então. O problema é o acesso, pois são desconfiadas por natureza. O que deve ser feito é realinhar o discurso e perfazê-lo com destreza.

Antigos instintos

Aguardou os últimos instantes, a porta se abrira e as pessoas andaram devagar. João pegou sua mochila e se dirigiu para o setor de desembarque. Os olhos atentos buscaram um rosto familiar, porém não reconheceram ninguém. O coração acelerou e o pensamento ficou em sua cidade. O futuro se apresenta num rosto simpático, ornado com um sorriso franco, cabelos loiros e olhos amendoados. O passado ficava difuso, parecia não pertencê-lo. O presente um aglomerado de gente. Depois de uma hora ela chegou, beijou-o rapidamente, segurou-lhe a mão e juntos seguiram para o estacionamento.  Ele já conhecia a metrópole, ansiosamente captou as imagens das ruas com desejo de memorizá-las, naquele instante sentiu que ali seria o seu lar, com tantas almas livres para extirpar.

Anjo torto

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Pedi ao anjo torto que me desse suas asas. Ele consternadamente disse: "Minhas asas são forjadas de aço e dor. Não elevam ao céu." Num sorriso maroto respondi,  quem disse que eu quero voar? O meu desejo é conhecer o lado gauche do mundo.

Conversa de nós dois

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Os olhos conversavam, mas quem estava ao redor não percebia.  Ela piscava duas vezes "sim", uma "vez" não. Ele coçava a cabeça "talvez" e piscava "não". A conversa animada ao redor e os dois num diálogo feroz. Sem que notassem as mãos cruzaram, os braços se tocaram e assim cada parte do corpo foi comunicando ao mundo.  A mesa ficou muda, os olhos espantados, os dois em silêncio se levantaram, se beijaram e deram adeus aos seus pares.

Olhos de nuvem

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Em meados de outono foi a primeira vez que vi Carolina. O vento frio chicoteava a alma, eu passeava despreocupadamente pela orla, estava distraído com o barulho das ondas. Todos os sábados, saia às seis da manhã, indiferente às intempéries não quebrava a rotina. Dar uma volta pelo bairro era quase uma religião, um ritual de abstração. Na época atuava como fotógrafo. Os primeiros momentos do dia propicia a luz é ideal. Vi ao longe uma figura diferente, parecia uma estátua, estava sentada de costas para o mar, com os pés fincados na areia, o rosto estava coberto por longos cabelos de fogo, aproveitei a câmera e tirei a primeira foto. À medida que avançava em sua direção eu a fotografava. Fiquei menos de um metro de distância, O vento atiçava os cabelos rubros, mas ela não mexia nenhum músculo. Fiquei hipnotizado, não sei por quanto tempo, de repente, ela virou a cabeça em minha direção. Como as espumas eram chupadas pela areia aquele olhar me tragou. Olhos de nuvem me surpreend...

Malogro

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Em único momento de lucidez pegou os trapos, os livros favoritos e algum dinheiro. C arregou no peito todo o remorso encharcado de whisky,  gritos,  socos e pontapés. Foi-se sem dizer adeus, nenhuma palavra de consolo. O silêncio preencheu  o discurso eloquente de despedida.  O sorriso no canto da boca, os olhos áridos, pés calcados no inferno foram as únicas lembranças deixadas. Cada movimento em direção do futuro se desmanchava a  carcaça que sua alma velha sustentava. 

Vidas perdidas

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O Belvedere da estrada do Contorno (da Rio-Petrópolis), foto reproduzida por Rouen Julia acreditou na promessa. Em breve voltaria aquele lugar. Arrumou os cabelos no alto da cabeça, prendeu-os com a presilha espanhola. Sua face resplandecia, era chegada a hora. Calçou as luvas, pegou a mala e partiu deixando para trás o aroma de jasmim. Leopoldo aguardava sua patroa, percebeu que nem o pó de arroz conseguia disfarçar as profundas olheiras, o vestido parecia engolê-la, as luvas estavam amareladas, os cabelos mostravam na fronte os fios de marfim. Pegou as velhas malas e depositou cuidadosamente no fundo do automóvel. O carro ganhava velocidade pelo caminho arborizado, serpenteava a colina. A cada curva  aumentava o enjoo. Aquelas náuseas matutinas que a assombrara por longas manhas parecia retornava à medida que o veículo vencia a estrada. Tinha certeza que tudo daria certo, afinal não completara 40 anos, sabia que tinha muito por  viver. Plínio certamente acredit...

Cochilo (um conto em construção)

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 Nu reclinado em rede , Antônio Frilli (Créditos:  Redes Vitória ) Aquelas tardes quentes de preguiça, o Sol encoberto entre nuvens, a brisa morna, o vai e vem da rede, o marulho ao longe. Deu aquela vontade de  contemplar o firmamento, e nesse pensar fui adormecendo.  Acho que vi os meus cabelos em desalinho, que pendiam ao chão. Percebi que as memórias que vinham fila indiana me acalentar, enchendo a minha rede até transbordarem lentamente em direção do mar. O meu corpo permaneceu inerte, mas a minha alma fugiu com as lembranças. A brisa me sussurrou segredos, eu lhe sorri. Corri em direção à praia, mas meus pés não deixavam marcas, não tocavam a areia branca que me cegava. O meu corpo etéreo misturou-se com as ondas do mar, sentia que flutuava no vai e vem das ondas, uma voz ao longe me chamava. Sem saber ao certo avistei uma casa, ela era minha, deu uma vontade de ficar por lá. Mergulhei sem medo me encontrei menina brincando com as estrel...

Pombear

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Pombear         Meninos no Balanço óleo sobre tela, 1960, 61 x 49 cm. de Candido Portinari Estava Marta sentada no banco. O velho grande banco da Praça do Sossego. Os cães dormiam à sombra do imenso Carvalho, cujas galhas arqueavam até o chão. Os pombos despreocupados serviam-se das migalhas esquecidas pelos meninos que brincavam nos balanços. Marta os observava. A tarde morna convidava para um cochilo, os meninos jogavam as mãos para o ar todas as vezes que o balanço subia. As pombas continuavam lá, comiam, comiam. Os cães esticavam suas patas até o infinito. Marta de soslaio tudo apreciava. Os cães, os pombos e os meninos.

Ela, ele e Mino

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Ele coçou a cabeça tentando encontrar uma resposta, mas nada fazia sentido. Ela ignorou os gestos dele, preferiu dar prosseguimento ao que estava fazendo. Colocou algumas roupas na sacola, na caixa maior colocou as fotos de seus pais, dois livros de Neruda e os Lps de Cat Stevens e Sarah Voughan. Na caixa menor colocou a comida e os brinquedos de Mino. Enquanto isso, ele a observava. Impassível, incrédulo. Algum tempo depois, saiu de seu transe, descobriu que ela havia deixado todas as joias, a maioria das roupas, todas as fotos de viagem, livros compartilhados e as chaves da casa e do carro. Ela partiu sem olhar para trás. A mágoa era grande, ponderou, mas disse a si mesmo: “Eu não a perdoo. Ela levou o meu gato!”.

A caixa

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Assim que entrou no prédio, o porteiro informou-lhe que havia chegado uma caixa pelo correio. Ela agradeceu a ele, agarrou a caixa, saiu em disparada para o elevador. Mal conteve a ansiedade das mãos, pensou alto “Vou estrear isso hoje!”.  Apertou o botão do elevador, seus dedos tamborilavam a embalagem energicamente. Esperou, suspirou, olhou para o relógio quase cinco minutos de expectativa. Mas, a ansiedade era tanta que no decorrer do tempo à espera virou irritação, pois o infeliz do elevador não chegava.  Para recuperar o controle respirou fundo, tentou lembrar-se dos mantras da aula de yoga, contou até dez, fez exercícios de respiração, ... o tempo parecia não passar. Finalmente, quando o elevador chegou, abriu a porta. Nesse instante ela se deparou com um casalzinho se beijando, não perdeu a oportunidade e largou o verbo: “É foda! Por que não vão para o motel? Esse prédio é de gente de família!”. O casal saiu sem graça, e bem rapidinho evitando os...

Doce Vlad

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Escrevi na parede do meu quarto as lembranças daquela noite. Senti um arrepio. A fria brisa  me beijou suavemente a pele, inconsciente explodi o desejo contido. Escrevi na pele do meu corpo todas as palavras beijadas desde a nuca até o ventre e os versos lavrados pelos seus dedos urgentes. Escrevi com sangue vivo os delírios irados pelo seu falo contundente. Seus dedos, face, barba, língua, dentes fincados em minha jugular. Morri de prazer.

GANHANDO O PÃO

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Novamente, parada na rua! Porra! Assim não dá pra ganhar o pão. Afinal vendedora de bala também é profissão. Tabuleiro pesado, tô devendo ao seu Olegário. Diacho de homem perturbado! Acha porque trabalho na rua aturando qualquer situação, sou obrigada aguentar sua “lera”? Humm tá bom!Moço, essas são três por um real. Aquelas são de um real e cinquenta. Vai querer? Não! O que tá pensando! O que! Largo este tabuleiro e te encho a cara ,canalha! Vá! É a mãe! Vixe! Os canas! Essa não! Eu? Não senhor, eu não roubei ninguém! Tira mão de mim! Pare! Vou gritar!Ahhhh!... Acordei moída, com o coro ardendo. Cheguei à conclusão, assim que for liberada, vou mudar de profissão. As meninas da rua direita disseram que o amiguinho delas não deixa a policia botar a mão.  Decidi:Não vendo bala jamais.